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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Noite de vencedores, eleições de vencidos


Este último domingo de Europeias foi realmente um dia de vitória para todos os partidos:

- Ganhou o PSD pois obteve mais votos, elegeu mais deputados, e promoveu a derrota pessoal de Sócrates, ao mesmo tempo que levantou das cinzas uma liderança apagada;

- Ganhou o BE com mais votos e mais deputados do que tinha antes, transformando-se na terceira força política;

- Ganhou o PCP porque conseguiu mais votos, mantendo o número de eurodeputados;

- Ganhou o CDS-PP porque conseguiu sozinho dois eurodeputados, triunfando na sua “luta contra as sondagens”;

- Até o MEP ganhou com o resultado obtido na sua primeira votação;

- E, sim… Ganhou o PS, dado que os seus votos foram conseguidos, contra as adversidades, de um cabeça de lista que saiu furado, e do “azar” de ser Governo numa altura em que os Governos Europeus estão a ser castigados pela crise.


Após estas histórias da carochinha o que fica realmente são os 63,14% de abstenção [6.098.565 eleitores], e os 6,63% de votos em branco e nulos [236.028 eleitores]. Podem apressar-se a falar da “falta de consciencialização”, do “comodismo”, ou da “indiferença”, mas a verdade é que são os políticos e partidos os verdadeiros culpados. O mais triste é que os políticos já estão tão habituados a uma democracia com pouca participação [mais fácil de controlar], que nem se apercebem aquele que é o verdadeiro cartão vermelho… não ao governo… mas a toda a nossa classe política pobre desprovida de conteúdo. Bem pode o Presidente da República fazer avisos, pois os agentes políticos estão ocupados demais, a fazer o que sempre fizeram… olhar para o seu umbigo, com palas nos olhos.


Veja-se os exemplos:
- O nosso primeiro-ministro disse muito rapidamente que não era um recado para o governo [não… era só para os outros];
- A presidente do PSD afirmou que “Em democracia, a arma é o voto se não se utiliza a arma é difícil lutar só com palavras” [A abstenção, os brancos e nulos, foi o uso da “arma”…];
- O líder parlamentar do CDS-PP, Diogo Feio, logo passou a bola para o Governo [surpresa…].





Até teria piada, se não fosse tão grave...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O voto castigo e o voto nulo



Vote para castigar isto e aquilo, este e aqueloutro. De todas as vezes em que se pede o voto, não há forma mais vã e sem conteúdo do que quando se pede um voto num partido para castigar um outro, mesmo quando o argumento é castigar a esquerda ou a direita [como se isso significasse alguma coisa]. Vote em X, para castigar Y… Mas é que apetece mesmo dizer, vai mas é choramingar para outra freguesia [ou país].
Muitas são as vezes em que oiço, “eu vou votar neste para castigar aquele”. Muitos parabéns! Acabou de demonstrar que a democracia passa-lhe completamente ao lado. Serviu de muito o voto castigo, aos que votaram PSD, para castigar o PS de Guterres, ou os que votaram PS para castigar a coligação PSD\CDS-PP, e agora servirá o mesmo aos que votarem PSD para castigar o PSócrates. Escusado será dizer que não ficam de fora os que castigaram, votando pequeno [entenda-se partidos pequenos].


Mas então para que serve o voto? Bem… para castigar é que não é de certeza. Pedem o voto castigo[1], aqueles que mais nada têm para apresentar, e usam o voto castigo num partido qualquer, aqueles que nada querem saber.
Em última instância, o voto serve para expressar a sua intenção de voto, num apoio a uma determinada orientação política [mesmo quando o intuito é apoiar determinado candidato]. Com o voto estamos a legitimar a acção política daqueles em que votamos, assim, o voto castigo surge quando aqueles em que votamos agem contrariamente aos desejos de quem neles votou.


O voto castigo não é mau em si, porque a ideia por trás de tal voto é a de julgar uma determinada acção política. O erro surge, quando votamos num determinado partido, só para castigar um outro. Votar num outro partido é bom, se concordarmos com as orientações desse mesmo partido, e não porque queremos castigar seja lá quem for, porque com essa acção só castigamo-nos a nós mesmos, castigando a democracia.
O voto castigo [quando é um objectivo em si mesmo] só é correctamente usado quando votamos em branco ou nulo [preencher o boletim como se não houvesse amanhã]. Só assim é que não estamos a atribuir legitimidade a quem não queremos, e a castigar quem pretendemos, não votando neles.


Normalmente o voto nulo traz alguns problemas a aqueles que querem votar e sempre votaram [os que não têm esse tipo de problemas estão tratados aqui: Abstenção consciente]. Mas o que acontecerá se eu não votar em ninguém? Mas o que acontecerá se todos votarem nulo? Estarei com isto a dar a maioria ao X? Estarei a ajudar a trazer ao poder aqueles que não quero?
A pergunta que se segue a estas só poderá ser: Se votar nulo estarei a fazer com que chova canivetes? Digo isto porque a lógica é a mesma, ou seja, nenhuma. Esse tipo de futurologia eleitoral não tem cabimento, enquanto fundamento de voto. Mais uma vez, o voto serve para expressar a sua intenção de voto, e não para testar os seus dotes de vidente.


O que muitos políticos, partidos, ou simplesmente cidadãos, parecem não entender, é que a democracia só funciona na sua plenitude quando não a tentamos controlar. O conjunto dos votos numa eleição, é a forma de os cidadãos definirem a orientação política, mas isto só funciona bem, democraticamente falando, quando cada um de nós expressa aquilo que nos vai na alma, através do voto. Assim sendo, se a sua orientação política vai de encontro com a de determinado partido, mas as acções das pessoas que estão à frente desse partido não se coadunam com a sua ideia de o que deveria ser feito [a ideia está mais desenvolvida aqui: Militantes ou autómatos]… simplesmente vote nulo, e o mundo não acaba, garanto. O mesmo poderá ser dito para aqueles que se revêem, em mais do que um partido, ou em nenhum e simplesmente acham que os políticos e partidos de agora não são dignos de levarem com o seu voto em cima… votem nulo.

Mas o que é que significa verdadeiramente o voto nulo? Que fique claro que um voto em branco ou nulo, bem como a abstenção, não significa a não validação dos resultados apurados por muitos que sejam, ou seja, alguém será eleito com os votos válidos, por muito poucos que estes sejam. O voto nulo ou em branco deve ser entendido como um voto de protesto, contra a falta de alternativas credíveis e contra a actuação dos políticos e partidos. É no fundo uma chamada de atenção dos eleitores aos que desempenham funções [não só cargos] na vida política do país. A verdadeira diferença entre estes votos e a abstenção, é que embora a abstenção também devesse ser entendida como uma chamada de atenção, esta é mais facilmente relegada para segundo plano enquanto desinteresse dos cidadãos pela política.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Abstensão Consciente







Estamos com as europeias à porta; os partidos e respectivos candidatos andam num frenesim eleitoral, escarafunchando por votos em todos os cantos, distribuindo promessas como se fossem doces, e apontando os dedos uns aos outros, na esperança de captar os votos que cairiam ao lado das urnas por pura desilusão. Mas alto e para o baile… pois há um ponto comum no regurgitar eleitoral… vale a pena votar… é importante votar… valerá? será?
As europeias são eleições fortemente marcadas pela abstenção… a bem dizer, as eleições (ponto) são fortemente marcadas pela abstenção.


A abstenção é sempre vista como o monstro da democracia associado à participação política, como uma espécie onda de despolitização dos cidadãos [como se tal fosse possível] que temos de impedir a todo o custo. Será a abstenção falta de consciência política, ou estará a consciência política por trás de tal mobilização?
Desde à muito esforçamo-nos por estabelecer os factores explicativos de tal comportamento, sempre do ponto de vista de uma não decisão de voto. As pessoas que vêm a política como algo negativo, as pessoas indiferentes à política, a percepção de utilidade da eleição, o sexo, a idade, o grau de integração, o contexto espacial [urbano ou rural], a proximidade dos actos eleitorais, o contexto da eleição [local, nacional ou europeu], a profissão, a escolaridade… enfim, um sem número de causas que enfocam o porquê da não participação política.
Porque não encararmos a abstenção enquanto escolha eleitoral? Mais fácil seria, para distinguir os não votantes simplesmente porque sim, dos não votantes enquanto escolha política, se estes últimos fossem votar e deixassem os boletins em branco. Na prática, quantas pessoas dão-se ao trabalho de ir votar para deixar o boletim em branco? Algumas certamente, mas poucas…

Está claro que isto não significa que todos os que não votam fazem-no apoiados numa consciência política. Existem os desinteressados, despreocupados, etc. Mas mesmo estes poderão ser descartados como tendo pouca ou nenhuma consciência cívica?
Com as europeias surge o fantasma da praia… o bom tempo… ahhh!… o mar… os passeios… Serão estas eleições vitimas do timing e assim, das condições meteorológicas? Se fossem no inverno a culpa seria com certeza da chuva… no Outono, do vento… na Primavera, das alergias. Nunca dos políticos e partidos que quebram promessas eleitorais, que encaram a democracia como o campo dos arrufos e das disputazinhas, que tratam os seus programas como mezinhas eleitorais, que em campanha falam com todos, por todos e para todos, enquanto durante os mandatos ignoram-nos [a todos], que apontam dedos com a mesma destreza e displicência como a que sacodem a água do capote, que usam e abusam do poder como se de um direito divino se tratasse. Nada a haver?

Vejamos as justificações mais comuns: “Prometem, prometem, mas não fazem nada”; “Quando lá chegam fazem todos o mesmo”; “São todos iguais”; “Andam todos a comer do mesmo saco”. Embora a maior parte das pessoas que usam tais expressões [que já caíram em lugar-comum], não consigam identificar as situações específicas, o porquê ou o como, isto não quer dizer que não saibam do que estão a falar. Os factos políticos costumam perder-se na maioria das memórias individuais, porém, estes tendem a deixar vestígios residuais na memória colectiva, que transparecem através do senso comum, que neste caso grita… berra… a política não presta, porque os políticos não prestam.
Depois aparecem os que dizem que já não há causas, que já ninguém luta por nada, como se não fosse o suficiente mobilizar-se pelo seu próprio bem-estar. Uma coisa é verdade, o declínio da identificação partidária já não proporciona o confortável encosto ideológico, na mobilização política. Já não basta ir contra a direita ou lutar contra a esquerda. Para além de que usar estes chavões para pedir o voto, é em si, uma derrota da própria democracia, pois tal movimentação pertence à esterqueira do populismo barato, apoiado na retórica ideológica. Não deixem que os partidos passem de mobilizadores da vontade política, para meros condicionadores de tal vontade.


Já havia afirmado anteriormente e mantenho: “Os regimes mais opressores cedo perceberam que a participação política trás consigo bagagem, e não demorou muito para as democracias se aperceberem desse facto. O eleitor é bom para eleger, e pouco mais. As promessas vencidas, a primazia o período eleitoral, o clientelismo e as manobras políticas, fazem mais pela apatia politica do que muitos dos factores externos ao sistema político.”
Os partidos não querem a participação política, querem o voto e o posterior silêncio. Aliás, outro dos aspectos que indicia esta pretensão é a busca incessante pelas maiorias absolutas, perfeitamente demonstrativo que nem partidos nem políticos sabem agir em democracia. A verdade, é que a democracia não reponde bem a quem tenta controla-la, coisa que parece passar ao lado destes senhores(as). Enfim…

Podemos nós julgar os que se estão nas tintas para votar? Em tempo de crise, onde todos sofrem; os eurodeputados vão ser aumentados; os partidos recebem balúrdios do erário público; na Assembleia da República o contribuinte paga as obras, o ar condicionado, os computadorzecos xpto, os painéis gigantes, e os sistemas disto e daquilo; os políticos renovam os seus carros topo de gama, com direito a motorista e limpa traseiro de algodão; os grandes andam a saltitar de cargo em cargo, de cunha em cunha, todos muito bem remunerados, como se o país fosse só deles; são gastos milhões para salvar a banca, como se essa fosse a única salvação… E o Zé, que anda a juntar meia dúzia de tostões para comprar um pacote de massa marca continente, vai tirar o pouco tempo livre que tem para passear [aqueles que têm dinheiro para isso], para ir votar nestes senhores?

Vamos então à utilidade da eleição europeia. Como é que o cidadão comum, que de processos políticos já percebe pouco, poderá dar valor às europeias, quando os próprios partidos desenvolvem as campanhas que estão à vista de todos? Desde que iniciou a pré-campanha, os partidos insistiram em debater a política portuguesa. Vá lá que a uma semana das eleições o PS decidiu concentrar-se na Europa. Só é pena que a decisão foi tomada porque, verdade seja dita, pela política nacional o PS só se enterra. De quando em vez lá vem um ou outro europeísmo, e pimbas… volta ao mesmo. Junto com isto, os políticos insistem no jogo das culpas e do passado [dos outros claro está] que raramente surte efeitos e nunca apresenta resultados. Já para não falar nos príncipes e princesas que dizem de boca cheia, votem em nós para castigar os outros. Não consigo pensar em melhor razão para votar em alguém. Amigos se quiserem castigar, ou melhor ainda, julgar o desempenho de algum partido, não o façam votando nos choramingas que por ai andam [a não ser que concordem com as suas propostas]. Simplesmente não votem em ninguém.


A mobilização política tem vindo a esmorecer em Portugal? Errado. O voto tem vindo a esmorece,r como consequência das atitudes e desempenho dos políticos e partidos, algo que demonstra uma forte consciência política, dado “o estado a que chegámos”.
Vale a pena votar? Pois com certeza que vale… vale a pena ir, e não votar em nenhum. Melhor dizendo votem nulo, pondo as cruzinhas em todos, não vá uma qualquer alma desorientada, pôr a cruzinha por si.
Miguel Portas disse, e disse bem: “Vale francamente a pena votar no próximo domingo, 07 de Junho. Estamos perante uma extraordinária oportunidade de cada um de nós, de cada uma das pessoas que me está a ouvir de poder dizer através do voto o que realmente lhe vai na alma.”
Pela segunda vez, falando nesta coisa chamada voto, vou buscar Fernando Pessoa: “ O voto popular não é uma manifestação da opinião pública, é uma expressão de sentimento.”
Os resultados eleitorais falam por si e demonstram o sentimento dos cidadãos em relação à política. No dia 7, digam através do voto o que lhes vai na alma e votem nulo. (nada de chico-espertismos)