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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Excepções

Rios de tinta e fôlegos sem fim de palavras dedicadas à excepção açoriana na redução do vencimento dos funcionários públicos, que se veio a chamar de remuneração compensatória.

Menos palavras gastas na excepção dos cortes salariais para os trabalhadores das empresas públicas atafulhada à última hora, e defendida pelo governo, que se veio a chamar de adaptações autorizadas.

Menos ainda na excepção madeirense à redução dos salários dos titulares dos cargos políticos, que se veio a chamar de coisa nenhuma, porque nem se deram ao trabalho.

Uns para compensar perdas eleitorais, outros para defender os interesses do costume, recorrem todos às excepções para manterem vivas as demagogias naturais. Se a mesma criatividade e empenho fosse empregue no bom desempenho dos seus cargos…

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O Populismo e a Demagogia [3]


A demagogia e populismo tornaram-se mote para aqueles que pretendem descredibilizar a posição contrária, como se a mera menção destas palavras resolvessem só por si as questões. Tornou-se moda acusar outros de demagogos e populistas, quando estes perfilam uma ideia de politica económica ou social diferente [ou até mais realista, digo eu], de tal forma que chega a ser demagógico ser-se anti demagógico ou anti populista. Se sairmos do âmbito daquele que é o status quo das políticas económicas e/ou sociais, somos automaticamente considerados demagogos ou populistas. Na verdade, quando acusamos alguém de populismo, isso diz mais sobre aquilo que pensamos de nós próprios. Ao proferir tal acusação estamo-nos a dar como detentores de uma legitimidade racional ou de um realismo verdadeiro que ultrapassa as visões daqueles que se nos opõem.

De facto, existe um conjunto de medidas ou ideias que garantem só por si o rótulo de demagogos e/ou populistas, tais como: baixar impostos; aumentar as pensões mais baixas; actualizar os salários e reduzir a discrepância entre altos e baixos salários; taxar "lucros especulativos” exagerados; corrupção; falar na promiscuidade entre política e negócios; ser contra algumas liberalizações; falar de parasitismo nas bancadas parlamentares; denunciar uma insensibilidade social na política e na administração pública; classificar a méritocracia de agora como cunhocracia. Não poderão os exemplos acima descritos ser a forma de resolver muitas questões que nos assombram hoje em dia? A titulo de exemplo, quando estão os gestores ou altos cargos em causa, é necessário atrair os melhores, oferecendo-lhes as melhores condições, e considerar que a “dignidade” dos cargos passam pela qualidade da remuneração. Quando estão em causa os restantes, aplicar os mesmos critérios torna-se demagógico, sendo necessário o congelamento de progressão na carreira, dos salários, cortes nisto e naquilo… E que resultadão tem isso dado… Está aliás à vista de todos. Noutro exemplo, falar em baixar os impostos é sacrilégio. “Alguns” [e algumas:] até acham que devia ser proibido falar nisso. Quem pensa que o maior problema está na despesa desmesurada e não na diminuta receita, que se amanhe. Como?... Populista?... Com muito gosto…

O Populismo e a Demagogia [2]


O populismo é uma ideologia que nasceu de aspirações democráticas, sedeadas num sentimento anti senhorial, no entanto, na sua forma mais comummente usada, o populismo refere-se a uma orientação política movida pela obtenção do favor popular. Tem se por populista aquele que suporta e apoia um pacote de medidas que agradam sobretudo às classes com menor poder económico. Encara-se frequentemente o populista como fazendo parte do “lado negro” da democracia, que mais interesse não tem, para além da sondagem, na tentativa de obter a legitimação popular. É numa suposta representação do povo, que o populista se insurge [por via de regra] contra as elites e vai assim ganhando uma maior popularidade. A mera tentativa de alcançar uma maior popularidade, agradando o povo, não denuncia só por si o maior populismo, dado que caso assim fosse, todos os partidos e aqueles que obtêm a maioria numa democracia [formando governo] seriam populistas [veja-se os programas eleitorais e a consequente governação]. Uma das razões que é transversal aos críticos dos populistas, é a simplicidade como estes encaram os assuntos. Os críticos vêem normalmente essa simplicidade como enganadora, inconsequente e incapaz de absorver a totalidade das complexas redes que pretende abarcar.


Parte do arsenal de um populista contem as mesmas tácticas que granjeiam um demagogo, por entre as quais se destacam: o confronto directo e quase estóico, em prol de determinadas causas quer elas existam ou não; uma imagem pública habilmente gerida em torno da proximidade com o povo, e de ideias que se colam facilmente; o constante alimentar do alarme social fazendo por isso, um maior uso das ideias que chocam [melhor sendo se no processo forem acusados “os poderosos”]; uma conduta e estratégia balizadas pelo sentimento popular da altura. Presumindo que determinado político pudesse ou quisesse seguir uma lógica puramente populista no desenrolar de um mandato, estaríamos perante uma situação que criaria deformações com efeitos positivos a curto prazo, que traria consigo repercussões negativas a longo prazo. Neste sentido, o populista é tido como aquele que quer algo impossível. Acontece que para assim o ser, temos de pressupor uma orientação politica puramente populista sem substância. Nenhuma medida só por si pode ser considerada populista [ou demagógica], logo a variável está naquilo que fundamenta cada medida apresentada. Mesmo perante a evidência de que nenhuma medida é só por si populista, muitas são tratadas como tal, deixando-nos com o vazio: Ah! Isso é populismo.

O Populismo e a Demagogia [1]


A demagogia e o populismo são conceitos que muitas vezes vemos atirados ao desbarato nas mais inúmeras situações. Mas o que significam na realidade? Uma melhor pergunta seria, quando é que o que motiva o uso destes conceitos, partilha da mesma essência daquilo que se pretende apontar? Dada a natureza destes, torna-se difícil separar o “trigo do joio”, pois o grau de certeza é sempre relativo e advém sempre daquilo que nós pensamos que sabemos, não necessariamente do que é.

Nos primórdios do conceito, a demagogia era encarada como a arte de conduzir o povo e estava desprovida de qualquer sentido pejorativo. Com o passar do tempo [e ainda com os gregos] a demagogia passou a chamar a si uma conotação mais negativa, que implicava o domínio do factor poder sobre a acção daqueles que o desejam ou o mantêm, passando estes a fazer uso de todos os artifícios possíveis, de modo a influenciar a seu favor os detentores desse poder [que em princípio é o povo]. O poder é aqui o conceito central, e em volta deste, é usada a demagogia. Um demagogo pode ser: o que pretende adquirir o poder; o que quer manter o poder; o que pretende fragilizar o poder de outrem; o que pretende exercer o seu poder numa determinada direcção ou de uma determinada forma. A demagogia produz mais efeitos quando actua no campo dos medos e preconceitos dos indivíduos que compõem o grupo alvo. O demagogo define os seus objectivos e “entra” na psique do grupo ou dos indivíduos para saber qual o caminho a seguir, de modo conseguir uma maior adesão à sua causa, que esconde os seus intentos, mesmo quando estes não fazem parte das ambições daqueles que a ela aderem. Esta é uma lógica assente na manipulação, como forma de obter o desejado; algo que não é estranho à sociedade e à mais comum vivência, no entanto aqui o poder e o que o rodeia, é a fonte das aspirações demagógicas.


O campo de acção, por excelência, da demagogia é a democracia, onde o poder reside no povo. De certa maneira, a maior parte do que rodeia os combates políticos tem aparentemente o seu quê de demagógico, especialmente quando nos delimitamos aos períodos eleitorais. É portanto no estabelecimento do que é ou deixa de ser demagógico, que encontramos os maiores problemas. Ninguém consegue com toda a certeza afirmar que seja lá o que for é demagógico, a não ser o demagogo claro está. A fronteira entre algo demagógico e uma simples linha de acção é ténue quando vista de fora. Partindo do princípio que não nos achamos donos de todo o saber e considerando que a um problema, várias soluções lhe assistem, nunca poderemos afirmar que determinada linha de acção é em si meramente demagógica. Na eventualidade de existir um qualquer iluminado que pensa saber tudo e identifica algo como inviável, esse mesmo iluminado fica-se ainda com o problema de estabelecer se quem defende a posição contrária, é ou não demagogo. Isto porque para ser possível acusar alguém de demagogia, teríamos que provar que essa pessoa não acredita nessa via, visando assim, exclusivamente o poder. Excluo aqueles que usam a demagogia para seguir um intento, sendo que os resultados dessa linha são opostos à manutenção do que queriam à partida. Esses são simplesmente estúpidos. Assim sendo, à parte das raras vezes em que a demagogia é mesmo denunciada [sempre posteriormente], ficamos apenas com o cliché barato e sem qualquer substância do: Ah! Isso é demagogia.