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terça-feira, 18 de maio de 2010

Casamento cresceu

O Presidente da República acabou por promulgar mesmo o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Foi claramente contra as suas convicções pessoais, algo que ainda dá mais força à decisão de Cavaco, enquanto decisão “presidencial”. A meu ver só é pena que Cavaco deu a entender que fê-lo por causa da situação do país. Caso contrário teria enviado o diploma de volta ao parlamento.

Sendo a favor do casamento homossexual, compreendo a posição de quem é contra. Têm os seus argumentos… os valores, a família, enfim… não concordo, mas compreendo. Agora, não deixa de me parecer hipocrisia aqueles [como Cavaco] que dizem que concordam com o direito mas querem que se lhe dê outro nome. União Civil Registada por exemplo.



[Imagem retirada do O Indesmentível]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Se a tua mãe fosse lésbica…


Casamento homossexual e tal e coiso… o drama… veja-se lá bem que há pessoas que querem ter direitos… tsc, tsc… o que vale é que já há portugueses que estão determinados em acabar com essa coisa de não discriminação. Em “boa hora” a plataforma cidadania casamento está a promover uma concentração no Marquês de Pombal, pelo casamento e pela família.

Que coisa mai linda!!! … pelo casamento e pela família… mui nobre motivo levará ao Marquês cidadãos preocupados com os “valores da família”… estou tão a favor desta concentração que até proponho um cartaz:


Brincadeirinha… E como a vida é feita de coincidências [pois…] a Ilga lançou agora uma campanha:

Neste caso só tenho uma dúvida, porque raio anda a Câmara Municipal de Lisboa a apoiar esta campanha? Não têm mais lugar onde gastar o dinheiro?

Nos entretantos lê-se por aí muita coisa sobre este cartaz. Por exemplo no blogue “Cachimbo de Magritte ” Paulo Marcelo escreve:


Talvez não… diria até que Paulo Marcelo estaria aqui… a mudança é que não estaria a escrever esse post e respeitaria a opção da sua mãe.

Bom, bom é usar o exemplo Africano e aplicar logo a pena de morte a quem não se compadece com moralismos de bancada, e acha-se livre para optar qual a sua orientação sexual e como deve levar a sua vida…


Fico-me com uma noção de família [A ver: A família democrática]

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Casamento civil registado

O Governo avançou [e bem] com a proposta de lei que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e ao mesmo tempo restringe [e bem \ note-se que eu concordo com a adopção] a adopção a esses casais.



O PCP concorda com a orientação seguida pelo governo com a separação das matérias, a ILGA aprova, e eis que surgem as já esperadas vozes dissonantes.

Primeiro a mais característica delas todas, o que tem um problema com o nome. O PSD vai apresentar um projecto de lei que propõe a união civil registada, ao invés do casamento. O partido não gosta de discriminação na questão do casamento, assim opta por meia discriminação, e dá outro nome… ao casamento. Depois temos o outro “partido”, Alberto João Jardim:


Sim… com tantos problemas para quê preocuparmo-nos com uma coisa menor como a discriminação… enfim…

Já o BE e a associação Panteras Rosa, acham que o casamento e a adopção estão no mesmo saco e acusam o governo de criar uma nova discriminação. Esta posição é a que eu tenho mais dificuldade em compreender. Na verdade o que acontece é um upgrade da discriminação, pois em relação à adopção a discriminação já existia. O que tenho menos dificuldade em perceber é o objectivo em pôr a questão dessa maneira. Mas isso já é outra história.



O CDS-PP, a igreja, o PND, ou seja, os defensores da “família” e dos “bons costumes” [ou pelo menos defensores da sua versão destes], já se insurgiram contra a medida, e fazem-se agora apoiar por uma iniciativa popular de recolha de assinaturas que conta agora com 72 mil assinaturas. O referendo em si não me parece necessário, no entanto nunca fui adverso à participação popular na tomada de decisões.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fisiologia Humana


No final de um jantar das jornadas parlamentares do PSD, falou o bispo do Porto… Sem dúvida que D. Manuel Clemente estava lá para explicar o processo e elementos da teoria “Leitista” do casamento para a procriação.

E que melhor maneira para fazê-lo, do que um bispo a explicar tal posição, com referências à tradição cristã e a partes da última encíclica do Papa, numas jornadas de um dos partidos do nosso Estado laico. Isto tudo numa altura em que o casamento “civil” entre homossexuais está em discussão.



O bispo pegou nos seus argumentos e fez uma bela sopa de fisiologia humana à moda do Vaticano, com rebentos de alteridade homem-mulher no cenário da perpetuação da espécie. A conclusão principal foi que as pessoas respeitam pouco a sua “própria fisiologia humana”


Como não me vou alongar sobre assuntos que já me debrucei anteriormente [disponíveis nestes “tags”: Discriminação; Família; Casamento], limito-me a constatar que o celibatário bispo é só mais um dos que "respeitam pouco a sua fisiologia.”

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Casamento por outro nome


Já tínhamos assistido ao drama existencial de alguns por causa do casamento entre pessoas do mesmo sexo [Post: Casamento] . Eis que, o drama do casamento outra vez… uns querem aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que a bem dizer é o oficializar de um direito que ninguém o direito de negar. Outros querem um referendo sobre o assunto, para que possam preparar campanhas muito instrutivas, em que falarão sobre uma qualquer noção pré histórica de família que pretendem agarrar afincadamente e impô-la a todos [a mal ou à força].


Agora brilhante brilhante, é o partido [o PSD] que evolui de algo como casamento para procriar, para se tornar a favor de uma união civil registada [1; 2]. Gosto muito de ver convicções fortes que se vendem por um… bem, um nome. Afinal o nome é que causa problema. As pessoas do mesmo sexo podem se casar legalmente, desde que se chame outra coisa. Inspirador… verdadeiramente inspirador. O nome é que não foi muito feliz. Gaysamento seria muito melhor.

Já estou a ver o cenário. Um lindo luar, um jantar `luz das velas, e…

… queres unir-te civilmente registado comigo?

Ou melhor… queres gaysar-te comigo?


Preocupem-se menos em tentar impor a sua visão do mundo a todos, numa verdadeira atitude de ingerência desmedida, e preocupem-se mais com os verdadeiros problemas… sim temos problemas… não dramas existenciais… lembram-se?

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Casamento


Ressurgiu a questão quando Manuela Ferreira Leite em entrevista a Constança Cunha e Sá, afirmou: “Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto àquilo que é uma relação de duas pessoas do mesmo sexo igualmente ao estatuto de pessoas de sexo diferente”.
Isto cai-me mal confesso. A discriminação nunca foi flor do meu jardim, seja ela negativa ou positiva, no entanto, nunca vi com maus olhos a discriminação enquanto escolha pessoal. Considero legitimo que alguém discrimine outras raças ou determinados comportamentos dentro daquela que é a sua esfera de liberdade; ou seja, alguém que se considera racista e/ou homofóbico tem todo o direito a não convidar um casal homossexual para sua casa, a recusar-se a falar com pessoas de outras raças ou a não comer na mesma mesa que um individuo de outra raça [desde que se levante e vá embora]. Algo completamente diferente, é quando esse alguém ultrapassa a sua esfera de liberdade e atropela aqueles que são os limites fronteiriços do raio de acção de outrem. Supúnhamos que esse alguém acima descrito, ao invés de se levantar da mesa e ir embora, decide-se por expulsar ou enxovalhar essa pessoa de outra raça. Aqui a agressão vai mais além, pois estamos a falar de um não reconhecimento dos direitos de outro ser humano. Falo em reconhecimento e não em não existência, pois quer sejam reconhecidos ou não os seus direitos, essa pessoa tem-nos enquanto individuo.

Imaginemos que esse nosso alguém racista e/ou homofóbico é funcionário público, e ao atender um rapaz que entrou de mão dada com o seu namorado, para além de encaixar uma ou duas bocas, não proporciona o nível de serviço que seria esperado numa outra situação. Poderia-me ficar pelo facto de que nesta situação, o nosso alguém está claramente a atribuir novas directivas ao desempenho da sua função, dado que assim, está a se incumbir de um poder discricionário sobre o exercício da sua função, que não possui nem poderá vir a possuir. Acontece que caso esse poder discricionário fosse legítimo, estaríamos a permitir que cada funcionário saísse da sua esfera de liberdade, servindo cada um como uma espécie de identidade reguladora, que funcionaria mediante as convicções individuais. Ora de acordo com essa ordem de ideias, caso o funcionário público fosse eu, e esse alguém entrasse de mãos dadas com o seu racismo [isto é possível], podem crer que o serviço prestado seria sem sombra de dúvidas de fraca qualidade, só não encaixaria as tais bocas, porque sou uma pessoa educada. Acontece que isto seria profundamente errado, pois eu estaria a impor sobre outrem aquelas que são as minhas convicções, fazendo-as repercutir sobre os direitos desse indivíduo.

Quando falamos de legislação o problema é em tudo semelhante, com o agravante de que falamos agora de algo que tem uma abrangência muito maior, logo, o cuidado deve ser redobrado. Ao longo da história a lei tem sido [em muitos casos] usada para impor aquela que é a vontade de uma consciência colectiva, regulando os termos efectivos do contracto social, na tentativa de manter conformes os padrões de comportamento, com o objectivo implícito de manutenção dessa mesma vontade. Essa consciência colectiva é influenciada pelos grupos que se criam numa sociedade, e estes por sua vez influenciados pelos indivíduos que integram esses grupos. Podemos considerar que a vontade de um grupo, é a vontade da maior parte dos indivíduos que o constituem, por conseguinte, a vontade da maioria dos grupos [ou vontade de um grupo que seja em si uma maioria], tornar-se-á a vontade da consciência colectiva. Podemos estar mais certos dessa relação quando essa “vontade colectiva” incentiva o processo legislativo que, pela sua natureza, condicionam o agir dos indivíduos; para além do condicionamento, podemos também assistir a uma fidelização e/ou incorporação da vontade que estimulou a criação desses mesmo regulamentos.

È exactamente no que toca ao condicionamento da vontade alheia, que tem de haver um esforço para sair do campo pessoal das convicções, de tal maneira que se consiga visionar o mínimo de interferência sobre o comportamento de outrem. Até porque convicções há muitas e comportamentos mais ainda, agora as certezas… essas são escassas. Enquanto humanos somos obrigados a concordar que a diversidade sempre foi uma característica presente na nossa espécie, característica essa que enriquece a nossa existência enquanto seres. Mais importante ainda é saber reconhecer as nossas próprias limitações, no que concerne à capacidade de entendimento. È ao absorver esses factores que devemos garantir uma margem de manobra [dentro da esfera de liberdade de cada um] propiciadora dessa liberdade, que garante a diversidade e estimula a coesão em torno de algo que ultrapassa as nossas convicções, ou seja, em torno do valor da humanidade no seu todo.


Daí que tenha alguns problemas com a frase: “Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto àquilo que é uma relação de duas pessoas do mesmo sexo igualmente ao estatuto de pessoas de sexo diferente.” Não haveria problema algum, caso Manuela Ferreira Leite se pronuncia-se sobre aquilo que são as suas convicções, sem com isto querer dizer, que impediria a atribuição do estatuto de casados [casamento civil] a casais do mesmo sexo. O que está de errado nesta acepção [a meu ver] é que Manuela [um individuo] não considera o casamento homossexual, como passível de ser beneficiado pelo estatuto do casamento, assim sendo, está disposta a condicionar outros indivíduos que não partilham dessas mesmas convicções. Em nome de quê? Valores? Que tipo de valores são esses, quando servem para limitar outrem, sem que essa limitação sirva para impedir a libertinagem do individuo em causa? Se fossemos a nos regular meramente por valores dos outros, conseguem imaginar a quantidade de coisas que cada um de nós seria impedido de fazer? Qual o verdadeiro valor de um valor quando a sua aplicação não visa o beneficio de todos e a salvaguarda dos direitos de cada um? Sempre considerei que o estatuto, quando nos referimos a relações humanas, nunca é atribuído de fora para dentro. Quem consegue contestar que um casal homossexual atribui-se a si mesmo o estatuto de casados e de família, independentemente da opinião de seja lá quem for?

È no reconhecimento externo desse estatuto que a coisa muda de figura. Se um casal de sexos diferentes tem direito ao estatuto de casados, para além de meras convicções pessoais e redutoras daquilo que significa o casamento, que outras razões haverão para impedir que casais do mesmo sexo partilhem desse estatuto? Afastando-me agora das liberdades e direitos, pergunto-me, o que é o casamento? Será a união de duas pessoas de sexos diferentes? Ou será a união de dois indivíduos? Encontrei no Corta fitas um post [A coragem de Manuela] publicado por João Távora, que fala sobre este assunto. Lá dizia que, “o casamento civil vem sendo progressivamente esvaziado dos seus frágeis fundamentos (…) Transformado num precário acto burocrático e muitas vezes pretexto para burlescos regabofes à moda de Las Vegas, decadentes exibições de intemperança, a admissão de pares do mesmo sexo na mesma caldeirada será a prazo a machadada fatal na instituição.” A instituição casamento está de facto mais frágil do que foi noutros tempos. Se bem que podemos a todo o momento contestar sob que condições, a instituição casamento se mantinha forte. Parece-me ser natural que numa sociedade mais livre, uma instituição como o casamento, perca algo da sua consistência, pois assim, estamos a lidar com uma resposta emocional e racional mais forte, por parte dos indivíduos que compõem essa mesma relação.


Se formos acompanhar o rácio dos divórcios, a taxa de divórcios era em 1975 de 0,2 por cada mil habitantes, em 1981 já ascendia a 0,7, em 1991 já alcançava os 1,4 e em 2001 o indicador estava no 1,8. Serão estes números tão assustadores ao ponto de anunciarmos a “machadada fatal na instituição?”. Nem por sombras, digo eu. Os moldes sob os quais enquadramos o casamento estão a mudar sem dúvida, porém, isso não é nem de longe nem de perto o fim prematuro do casamento. Antes pelo contrário, esta trata-se da renovação do casamento, que tal como noção de família, está-se a adaptar a uma nova sociedade. Nunca nos podemos esquecer que a evolução [positiva para uns, negativa para outros, como sempre foi] é um processo contínuo sujeito às condições sociais, não a moralismos e convicções sobre os temas. Quanto aos “regabofes à moda de Las Vegas”, concordo que sejam o extremo de uma situação que se quer mais sóbria, porém penso que estamos bem longe desses regabofes. Agora, juntar “a admissão de pares do mesmo sexo na mesma caldeirada” é que será o exagero.


Volto à pergunta, o que é o casamento? Qual é a diferença entre um casamento homossexual e um casamento hetero? Será o amor? Não existe ninguém que possa afirmar sem qualquer sombra de dúvida, que uma mulher é incapaz de amar outra mulher com tanta intensidade como seria capaz de amar um homem. Serão os homossexuais capazes de respeito pela outra pessoa ou de querer passar o resto da vida com outro(a)? Quem acha que isto é mesmo uma pergunta, nem merece resposta. Será a capacidade de funcionar como uma família? A realidade mostra que família é mais do que mãe, pai e filhos. Penso já ter respondido a esta questão neste post. Então o que será? Foi no blog Cachimbo de Margerite, que encontrei um post [A questão do casamento], publicado por Nuno Lobo. Lá lê-se, “Hoje em dia, quando ouvimos alguém designar o casamento como a união familiar entre um homem e uma mulher, com vista à procriação, sentimos que estamos perante um discurso sem credibilidade…” Ahhh! A procriação… Por muito que se evite, a procriação consegue-se através do sexo. O casamento não deixa de ser um feliz efeito secundário decorrente da necessidade de um ambiente seguro para a prol [a família], que ultrapassou o seu propósito inicial.

Caracterizar o casamento como uma união familiar, com vista à procriação é despir esta instituição do seu verdadeiro significado; a união entre dois seres humanos, com vista nada mais do que a união em si. Para quê descaracterizar o casamento, atribuindo-lhe uma função? No referido post lê-se: “ (…) o Legislador não pode deixar de discriminar claramente entre a união entre homens e mulheres, já que é nelas que se verifica a complementaridade dos sexos e a totalidade da espécie, por um lado, e a união entre dois homens ou duas mulheres, onde nem os sexos se complementam nem a totalidade da espécie se manifesta.” A complementaridade dos sexos é um facto natural que não é único à nossa espécie. A não ser que a preocupação seja que os seres humanos se deixem de reproduzir [o que me parece altamente improvável], não vejo particular interesse em discriminar as uniões entre seres do mesmo sexo. A racionalidade sim, é única à nossa espécie, e é nesta que encontramos a totalidade da espécie. È esse o elemento que nos permite ultrapassar a barreira natural, dado que deixamos de estar sujeitos à maior parte dos condicionalismos que nos rodeiam. Considerando que a racionalidade é em si um elemento natural, não nos falta senão admitir que aquilo que surge a partir desta é também natural. Assim sendo, a escolha racional de um parceiro do mesmo sexo, com base em emoções [que são em si naturais], conferem às uniões homossexuais toda a “naturalidade” necessária.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Pelo divórcio unilateral



O projecto de lei sobre o divórcio unilateral sem invocação de motivos foi chumbado no parlamento dado que o PSD e o CDS votaram contra e o PS absteve-se. O debate, porém, não deveria terminar. Numa altura em que o tema está “quente”, mais pessoas deveriam mostrar o que pensam, de modo a que mais metas sejam alcançadas. A Igreja Católica, por exemplo, depois de algumas derrotas “morais”, não poderia deixar de se pronunciar sobre o assunto.


O bispo D. Carlos Azevedo afirmou que, “O facilitismo não ajuda as pessoas. E a lei tem uma função pedagógica nisso, ajuda as pessoas a pensarem bem antes de darem o primeiro passo.” Estarão as pessoas dependentes da função pedagógica da lei, para tomarem decisões relativas ao foro íntimo? O que quererá esta afirmação dizer, senão que nos devemos sujeitar ao que nos é imposto, ao invés de promover um leque mais vasto de informação, de modo a que possa ser atingida uma opção livre e melhor ponderada? Não me deixo levar pelas teses ultra-conservadoras, de que as acções do Homem comum têm de ser orientadas, sob pena de este se deixar levar pelos impulsos ou inclinações mais básicas, degenerando para um ser imoral (ou mesmo amoral). Antes pelo contrário, penso que quanto mais orientação, menor a incidência de uma moral livre e verdadeira logo, quaisquer tentativas de predeterminar a moral dos indivíduos são em si um falhanço. Pois, a moral é lógica e racional, sendo assim necessário que a moral parta da liberdade de pensamento e acção, e não do seu contrário.


Mais ainda, os divórcios não são estimulados por acção directa da lei. Segundo o Público, “com a Revolução de 25 de Abril de 1974, o número de divórcios sofreu uma subida acentuada no território nacional.” De acordo com o INE, a taxa de divórcios era em 1975 de 0,2 por cada mil habitantes. Em 1981 já ascendia a 0,7 e em 1991 já alcançava os 1,4. Em 2001 o indicador estava no 1,8. Podemos afirmar que após o 25 de Abril as pessoas sentiram-se compelidas a divorciar-se? Ou a ideia de liberdade associou-se à ideia de liberdade individual? Não é difícil de conceber que sob um regime autoritário a ideia de escolha está condicionada ao ponto de traduzir-se em casamentos “aparentemente” mais estáveis. Sou mais adepto da noção de que o clima de instabilidade influenciou a subida dos divórcios. Quanto mais estável o Estado e mais estável a sociedade, mais estáveis os casamentos, com ou sem imposições externas.


Não me deixo corromper pela ideia de que a instituição família está em crise ou a de que o divórcio é um factor exclusivamente negativo que apenas impõe “stress” sobre esta instituição. A instituição família não se está destruir, está sim a alterar-se, algo que não é novo para esta. Escolhe-se o ano e\ou a zona geográfica e escolhemos o tipo de família, sendo todos perfeitamente funcionais. Acontece que a família é – tal como o Homem – altamente adaptável, agindo de acordo com as circunstâncias em que se encontra. Todo o stress que é imposto sobre a família, advém do facto de a consciência colectiva ser em algumas questões, menos dinâmica do que a própria família. Muito devido às forças de bloqueio, que fazem sentir a sua presença na sociedade. É certo que o divórcio trás consigo alguns aspectos negativos, no entanto pode também conter algo de positivo. Não será difícil de argumentar que o divórcio, alivie a família de conflitos internos que poderiam trazer mais males do que bens. A maior parte dos problemas associados ao divórcio nasce dos indivíduos e das suas atitudes e não do divórcio em si. Sendo assim, esses mesmos problemas, trariam piores repercussões caso houvesse uma continuação do casamento quer para a família, quer para os directamente envolvidos.


Ainda segundo o mesmo bispo, o "matrimónio é uma instituição da sociedade", "já existia antes da Igreja", assim o "Estado tem obrigações para com essa instituição", "deve defender a união entre as pessoas". Seguindo esta ordem de ideias o individuo é uma “instituição” que precede o matrimónio, logo o Estado tem a obrigação de proteger a liberdade de escolha deste, enquadrando-o devidamente na sua própria esfera de liberdade. Já o padre Duarte da Cunha (ex-responsável da Pastoral da Família na diocese de Lisboa) acredita que “estamos perante uma cultura da desistência” e acusa a iniciativa parlamentar de ser uma "sentimentalização excessiva do amor". Gostava de saber como “sentimentalizar excessivamente” um… “sentimento”; ou estarei a argumentalizar demasiado o argumento? O presidente da conferência episcopal, D. Jorge Ortiga, disse que "não há amor sem sofrimento e sem dor". Isto é inteiramente verdade, alguém que queira manter o amor não pode fazê-lo sem sofrimento nem dor, sendo Quer a palavra de ordem.


Não é minha intenção ultrapassar a barreira do admissível e classificar as declarações dos religiosos, gostaria porém de relevar que o Estado laico existe por alguma razão e que a igreja não possui o monopólio da moral. Uma coisa é orientar o rebanho católico num ou noutro sentido, outra, completamente diferente, é pretender fazê-lo com o Estado de direito, entidade essa que abarca todos os portugueses. Consta no DN que D. Carlos Azevedo considera que o projecto que será debatido a 16 de Abril, é mais um sinal claro da postura de afrontamento que o actual Governo assumiu relativamente à Igreja Católica. O afrontamento existe, mas não é do governo, é sim de uma sociedade que avança no sentido de maior liberdade e de uma democracia melhor consolidada.


A “liberalização” do divórcio litigioso com a redução de um ano (recentemente aprovado), como período de separação, após o qual o divórcio é decretado, é um passo no caminho de um casamento mais livre. Entre os muitos argumentos que já foram arremessados, houve um que diz menos do que todos os outros: “Só se pensa na liberdade do que se quer divorciar. E onde está a liberdade do que não se quer divorciar.” Parece-me plausível que numa relação, ambas as partes tenham que estar de acordo quanto á manutenção desta. Aqui cito Helena Pinto do Bloco, “é ou não uma razão objectiva de divórcio quando o amor acaba?”.


O divórcio-sanção é algo que só por si, não tem pontas por onde se lhe pegue. Compreende-se deste, a necessidade de sancionar uma das partes por incumprimento. Sendo que, o cumprimento não está esclarecido nem o âmbito do que se pretende sancionar está totalmente compreendido. Inserir a culpa na legislação, não faz sentido, porque com isso não estamos a prevenir a possibilidade das partes renunciarem ao casamento por separação de facto ou violação de direitos; estamos sim a restringir o acesso ao divórcio daqueles que simplesmente querem deixar de estar casados com alguém. Mantenhamos em mente que algo que não é legislado, não é proibido. Assim a lei pode e deve ter algo a dizer quando não regulamenta ou quando regulamenta o seu oposto.


As verdadeiras questões em torno do divórcio unilateral estão no que toca aos bens e aos filhos, ou seja, no que fica após a dissolução do casamento e não a decisão propriamente dita. É bom que se diga isto pois tende-se a confundir os campos consoante as conveniências de opinião. Aqui impera a necessidade de igual protecção de ambas as partes (ou partes terceiras), algo que surge da justiça e não do impedimento. É necessária a criação de condições favoráveis ao divórcio unilateral saudável, que foquem sobre a universalidade dos benefícios ou malefícios. Estou convicto que após a adopção deste tipo de divórcio, acompanhada da tentativa de consciencialização colectiva do que este significa, a curto prazo seu número aumentaria, porém a médio-longo prazo assistiríamos a uma estabilização, senão redução dos números.




Por estas e mais razões, sou pelo divórcio unilateral.